Trabalhadores que comiam frutas do chão para matar fome e tinham 'dívidas artificiais' vão receber direitos trabalhistas em MG

  • 27/03/2026
(Foto: Reprodução)
Trabalhadores foram resgatados em lavoura de milho em Ibiá AFT/Divulgação Um grupo de 29 trabalhadores resgatados de condições análogas à escravidão em uma fazenda de milho em Ibiá, no Alto Paranaíba, vai receber os direitos trabalhistas após acordo firmado pelo Ministério Público do Trabalho em Minas Gerais (MPT-MG). As investigações apontaram que a alimentação era insuficiente e que alguns trabalhadores chegaram a comer frutas caídas no chão para matar a fome. Além disso, os trabalhadores sofriam descontos abusivos por moradia e alimentação, o que gerava “dívidas artificiais” permanentes e os mantinha presos à exploração. O acordo prevê o pagamento de R$ 203 mil em verbas trabalhistas e a imposição de uma série de obrigações ao empregador para evitar novas irregularidades. Cada trabalhador deverá receber cerca de R$ 7 mil. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Triângulo no WhatsApp Segundo o MPT, o valor será pago em 24 parcelas mensais de R$ 8.458,33. Em caso de atraso, será aplicada multa de 20% sobre o saldo devedor. Vítimas foram resgatadas sob condições degradantes e fome Os trabalhadores foram resgatados em 6 de outubro de 2025 durante uma operação que reuniu auditores fiscais do trabalho, Polícia Federal (PF) e o MPT. No local, eles trabalhavam na colheita manual de palha de milho, em jornadas exaustivas, sem registro em carteira e em condições degradantes. Segundo as investigações, alguns relataram que passavam fome e "pediam esmolas" de frutas que encontravam pelo chão para se alimentar. Consta no processo que os trabalhadores recebiam por produtividade, com remuneração calculada pela quantidade de palha cortada. Segundo a auditoria fiscal, cada cortador produzia, em média, entre 30 e 45 quilos de palha por dia, com ganhos mensais entre R$ 6 mil e R$ 9 mil. O agravante, segundo os fiscais, foi a caracterização da chamada “servidão por dívida”. Custos com alimentação e moradia eram descontados dos salários, criando débitos artificiais que impediam os trabalhadores de deixar o local. Sem dinheiro e dependentes do transporte fornecido pelo intermediador, muitos não conseguiam sair da fazenda. "A prisão dos trabalhadores ao trabalho configurou a servidão por dívida e trabalhos forçados, visto que cerceou o direito de ir e vir dos trabalhadores que não queriam ficar sem remuneração", justificou o procurador do Trabalho, Hermano Martins Domingues, ao ajuizar a ação. Jornada exaustiva e trabalho forçado Segundo o MPT, a rotina começava por volta das 3h. Os trabalhadores saíam às 4h de Araxá em direção à fazenda, em um trajeto de cerca de 2h30. O retorno acontecia apenas no fim da tarde ou início da noite, sem pausas adequadas para descanso ou alimentação. A jornada era contínua, sem folgas semanais, com trabalho de segunda a segunda. Além disso, o trabalho era feito sob sol ou chuva, com uso de facas, em atividade repetitiva e fisicamente exigente. Não havia local adequado para descanso ou refeições. Alojamentos precários de trabalhadores de lavoura de Ibiá AFT/Divulgação Alojamentos também eram precários Ainda conforme a denúncia, os trabalhadores estavam alojados em imóveis de Araxá em condições consideradas insalubres. Havia superlotação, pessoas dormindo no chão ou em locais improvisados, falta de água potável e ausência de estrutura básica. Também não havia locais adequados para refeições e muitos faziam as refeições em cima das camas. LEIA TAMBÉM: Fome, 14 horas de trabalho e alojamento de lona: homens em situação análoga à escravidão são resgatados em carvoaria de MG Madalena Gordiano: envolvidos no caso da mulher que viveu 40 anos em situação análoga à escravidão em MG são ouvidos em audiência Bloqueio de bens e ação judicial Após o resgate, o MPT entrou com ação judicial para garantir o pagamento das indenizações e solicitou o bloqueio de bens dos responsáveis. A Justiça do Trabalho de Patos de Minas determinou a restrição de venda de uma fazenda e de uma caminhonete para evitar a dissipação do patrimônio. O acordo também prevê registro em carteira, pagamento de salários dentro do prazo legal, descanso semanal remunerado, fornecimento de água potável e melhorias nos alojamentos. O descumprimento pode gerar multa de R$ 5 mil por trabalhador. Apesar do acordo, os trabalhadores ainda podem recorrer à Justiça para pedir valores adicionais. O caso continua tramitando, e os empregadores também respondem a uma ação civil pública. Trabalhadores foram resgatados em lavoura de milho em Ibiá AFT/Divulgação Banheiros eram precários e alojamento não contava com água potável AFT/Divulgação ASSISTA TAMBÉM: Minas lidera resgate de pessoas em trabalho análogo à escravidão MG lidera resgate de pessoas em trabalho análogo à escravidão VÍDEOS: veja tudo sobre o Triângulo, Alto Paranaíba e Noroeste de Minas

FONTE: https://g1.globo.com/mg/triangulo-mineiro/noticia/2026/03/27/trabalhadores-que-comiam-frutas-do-chao-para-matar-fome-e-tinham-dividas-artificiais-vao-receber-direitos-trabalhistas-em-mg.ghtml


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